Existência Fortuita

Apesar de não ser muito tarde, eram raros os carros ou as pessoas que passavam pela rua naquela noite. O céu escondia sua face por trás de um véu de seda fina que se alongava por toda a sua extensão e não havia mais do que uma ou duas estrelas visíveis. Havia vento, mas não o frio. Com os passos de um dia que já muito se alongara e a mente a mimetizar o tom opaco do céu, eu caminhava rumo ao meu lar, onde uma nova pilha de rotina me aguardava. Considerava-me satisfeito com o trabalho realizado ao longo do dia e podia-me dizer realizado, apesar do cansaço. É sempre boa a sensação de saber-se reconhecido por aquilo que nos apraz.

À medida que andava, maquinava quase involuntariamente o roteiro do dia seguinte: quando acordar, o que comer, a que hora sair, o que (e como) fazer. Tarefas, objetivos, metas, ações, compromissos, horários. Pareciam-me naturais os passos a serem seguidos para se alcançar o objetivo sólido, embora um tanto disforme, do sucesso. O avanço da noite, disseram-me, é a concepção do dia, e eu contava os minutos de um relógio sem corda até o distante alvorecer.

Ao atravessar a última avenida antes de casa, contudo, ouvi um homem me chamar. Ele vinha da minha direita, com um passo lento e bastante arrastado, e sua voz saíra rouca e um tanto cansada. Virei-me para ele com certa displicência e me pus a ouvi-lo. Queria saber onde era um templo religioso ali próximo. Com a naturalidade fria, uma espécie de gentileza impaciente, que a vida urbana nos ensina, apontei a direção e dei instruções breves. Não cheguei a olhá-lo diretamente, acho, ou, se olhei, pouco vi além de um homem perto de seus sessenta anos, de estatura baixa e corpo roliço.

Dando por encerrado o pequeno diálogo, comecei a me virar para a minha direção original, mas o homem tornou a me chamar. Não havia entendido bem o caminho. Não sem certa impaciência, voltei-me para ele, mas, dessa vez, pude fitá-lo com mais atenção. Suas roupas – uma calça jeans surrada suspensa de qualquer forma por um cinto que mais se assemelhava a um fio, uma blusa branca muito amassada e muito suja, e um casaco igualmente branco e igualmente sujo, além de um pequeno boné azul-marinho surrado – estavam repletas de manchas de sangue, algumas bastante vivas. Suas mãos também estavam muito ensanguentadas, mas tinham um aspecto viscoso devido à sujeira (asfalto, possivelmente) acumulada. Seu rosto estava marcado por diversas escoriações e dois cortes mais profundos, sendo um deles, no queixo, a fonte de boa parte do sangue que lhe estampava a camisa. A boca, inchada, certamente recebera um golpe pouco amigável, e os olhos, escondidos pela sombra do velho boné, estavam levemente avermelhados e bastante úmidos. Um acre odor etílico acusava ebriedade.

Senti um arrepio percorrer-me a pele e, sem encontrar a palavra adequada ao momento, perguntei se ele estava bem. Queria ir ao templo. Precisava ir lá. Diante da imprecisa resposta, ofereci-me para acompanhá-lo até o local. Ele aceitou. Atravessei novamente a avenida, agora no sentido oposto, acompanhando o passo arrastado do senhor. Ele mancava da perna esquerda e havia algo na direita que visivelmente o incomodava muito.          Quis saber se havia lhe acontecido algum sinistro, e ele apenas dizia frases desconexas ou palavras emboladas. Seus olhos perdiam-se entre os meus e pontos aleatórios. Entre as frases, pude distinguir que havia perdido uma carteira. Perguntei se fora assaltado, e ele confirmou.

Nesse momento, seus pés se confundiram e, não fosse minha reação imediata, teria ido ao chão. Sugeri que parasse um pouco para respirar. Ele, então, pôs-se a narrar seu infortúnio: saía do bar, quando foi abordado por um indivíduo que lhe queria a carteira. Como lha negou, foi atacado e deixado ao chão e teve, por fim, seus documentos e algum dinheiro que lhe restava subtraídos. Então, começou a falar no diabo e em suas tentações, na aguardente que o havia amargado e que precisava se encontrar com Deus.

Tornamos a caminhar, mas eu já não pretendia levá-lo ao tal templo. Perguntei se ele queria ir ao hospital, mas ele negou. Sugeri, então, irmos a uma delegacia sob a justificativa de prestar queixa do assalto e da perda dos documentos. Embora titubeante, ele concordou. Mudamos a direção novamente e dobramos uma esquina à esquerda, sempre seguindo seus passos lentos. A delegacia ficava ao fim do quarteirão. Seus passos se tornaram ligeiramente mais vacilantes, e eu me posicionei para evitar nova queda. Contudo, já próximo do nosso destino, entrelaçaram-se suas pernas e, mais depressa do que eu pude evitar, ele tombara de frente, acertando em cheio o rosto no asfalto da rua. No chão, perdera a consciência. Aflito, olhei ao redor procurando auxílio, mas nada vi. Havia, porém alguém vindo, e logo pude identificar a voz de um homem cantando um hino religioso com vigor. Enquanto se aproximava o homem, que, pela direção, acabara de sair do templo ao qual levaria o meu anônimo companheiro, percebi que os sentidos retornavam-lhe aos poucos. Tentei ajudá-lo a se levantar, mas tive dificuldade. Seu corpo estava enrijecido e mais pesado do que parecia ser. Como quem pedia ajuda, virei-me para o homem que se aproximava cantando, mas antes que eu falasse algo, ele me aconselhava a sair de perto do homem. Havia nele o diabo, e ao diabo não se pode dar brechas. Por fim, saíra condenando o destino do senhor que pateticamente tentava se levantar do chão.

Desconcertado, tentei novamente – dessa vez com sucesso – erguer o senhor e colocá-lo sentado no meio-fio. Seu rosto havia se machucado mais com a queda. Agora seu nariz trazia uma ferida feia e bastante ensanguentada. Notei, contudo, que seus olhos não estavam mais apenas úmidos, mas se escondiam sob lágrimas. Perguntei como estava, e a resposta foi medo. Ele temia o diabo mais do que tudo, mas não conseguia evitá-lo em sua vida. No auge de minha pouca religiosidade, procurei consolá-lo com as palavras que me vinham à boca. Falei de paz interior, dos demônios que cada um carrega e de um deus, que, embora eu não conhecesse, pareceu-me pertinente mencionar. E o senhor contou-me que seu nome era Valdir e que vivia sozinho havia nove anos em uma casa no bairro da Serra. Não tinha família, tampouco emprego. Sua sobriedade se diluíra paulatinamente e em doses homeopáticas na solidão em que vivia. Sua saúde, não sabia, mas possivelmente, também. Não tinha muita coisa, a não ser o medo. Falou frases que não entendi (muitas delas), chorou muito. Por fim, deitou-se no chão com os olhos voltados para o nada.

Nesse momento, uma policial que estava na delegacia nos viu e acenei para que nos ajudasse. Valdir, no chão, nada falava, e eu relatei sua desventura à militar. Pediu-me o nome e o documento, e eu relatei os dados que colhi ao longo da conversa. Ela se adiantou, verificou-lhe as feridas e contatou unidade médica. Então, entrou na delegacia à procura de material para estancar parte do sangramento que ainda persistia até a chegada do resgate.

No chão, ainda com dores, Valdir me olhou e falou algo que não entendi no primeiro momento. Aproximei-me dele e o ouvi, com voz fraca, agradecer-me duas ou três vezes. Trazia, em seu rosto bastante maculado e sujo, um esboço de um sorriso, apesar de ter os olhos perdidos em um ponto vazio, vislumbrando algo que apenas ele poderia ver.

Quando a policial voltou com toalhas de papel e começou a tratar das feridas, a equipe médica chegou. Examinaram Valdir, falaram-lhe algo e puseram-no na maca e, enfim, na ambulância. Pude vê-lo ainda uma última vez com os olhos semicerrados, prontos para dormir, parecendo ainda incertos quanto a o que fitavam, instantes antes de seguir para o hospital. Havia apenas duas certezas: que não voltaríamos a nos encontrar e que eu me lembraria dele.

Agradeci a policial pelo apoio e segui novamente meu caminho para a casa. Contudo, não pensava mais na pilha de rotina que me aguardava ou no planejamento do dia seguinte. Tampouco pensava no sucesso ou tinha na sensação de satisfação. Pensava, sim, nos olhos de Valdir. Nos olhos nem vivos nem mortos, repletos de lágrimas e vazios de olhar; olhos que olham só por hábito, mas não sabem o que veem; que têm medo do que não veem e procuram o que não conhecem. Olhos que refletem a dor das feridas de dentro e parecem ignorar a dor das feridas de fora. O que havia neles de diferente em relação aos meus, havia pouco confiantes e cheios de certezas corriqueiras, ou aos do homem que cantava sua música de louvor e tecia seus julgamentos é um questionamento que não me sai de mente (tentei imaginar quantas feridas são necessárias para apagar por dentro os olhos de alguém, mas não cheguei a um resposta). Talvez os afazeres, as metas, os objetivos, os compromissos e os horários não sejam suficientes para fazer da minha vida mais plena do que a de Valdir, muito menos o sejam as ideias de realização e reconhecimento. Afinal, esses são conceitos fluidos e voláteis demais para reger uma existência. É possível, inclusive, que eles exerçam, no máximo, uma figuração de destaque na construção de uma vida que se vive completa, mas que morre em si mesma. E, nesse caso, eu não seria muito diferente de Valdir.

“O homem não é a soma do que tem, mas a totalidade do que ainda não tem, do que poderia ter. (Jean-Paul Sartre)”

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Lágrima

Lágrima salgada

Acompanha solidária

Uma alma solitária.

“Como a voz, também a mão geme

E na parede se debruça

A sombra pálida, que treme,

De uma garganta que soluça…” (Manuel Bandeira)

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Felicidade

A felicidade é um sorriso

desenhado à faca

em uma face em prantos.

 

“[…]E embora caias sobre o chão, fremente,
afogado em teu sangue estuoso e quente,
ri! Coração, tristíssimo palhaço.” (Cruz e Souza)

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Flor

 

Se te trouxe flor ao meu jardim

Não foi para colher-te os frutos

Nem roubar-te ramos

Ou despir-te as pétalas.

 .

Não foi pra fazer-te prêmio

Roubar-te a fragrância,

Reduzir-te a adorno

Ou forjar de ti coroa

 .

Trouxe-te flor para que flor sejas

– Mais que isso: para que flor, que és,

Floresças onde de perto

Eu possa-te ver.

“Gosto de ti, assim:

Coisa em si” (Manuel Bandeira)

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A minha andorinha

Quando eu era pequenino

Eu ganhei uma andorinha.

Como eu ficava chateado quando ela saía a voar!

Ela voava e eu olhava,

Ela voava e eu engatinhava,

Ela voava e eu me esticava, mas eu nunca a conseguia alcançar…

Então ela me olhava, piava e saía de novo a voar.

 .

A minha andorinha me ensinou a andar.

 

“Eles passarão; eu, passarinho” – Mario Quintana

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Natal

Negro, velas, silêncio

Festa de Natal

– Cadê o vô Juquinha?

a

Abraços, família, lembranças, lágrimas

Depois, a ceia de Natal

– Vovô não vem?

a

Papai Noel virá

Com um saco cheio de presentes

– Fala pro vô vir ver!

a

Meia-noite, presentes, sorrisos, lágrimas

– Por que vovô não veio?

– Porque Papai Noel levou.

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Um dia na vida

Cedo como de costume,

José levantou-se,

Banhou-se,

Penteou-se,

Vestiu-se,

Perfumou-se,

.

Comeu,

Leu,

Bebeu,

Acordou,

Saiu,

Chegou,

Saudou,

Sorriu,

Trabalhou,

 .

Parou.

 .

Almoçou,

Ligou,

Perguntou,

Respondeu,

Gargalhou,

Declarou,

Marcou,

Sorriu,

Desligou,

 .

Voltou.

 .

Organizou,

Atendeu,

Digitou,

Preocupou,

Pensou,

Suou,

Se virou,

Conseguiu,

Terminou,

 .

Sorriu.

.

Então, recebeu cumprimentos,

Elogios e felicitações

E, cansado,

Voltou pra casa

Com a satisfação habitual.

.

No outro dia,

Foi encontrado em seu quarto

Pendurado por uma corda no lustre,

Sem recado, sem sorriso, sem motivo, sem nada.

.

“Assim eu quereria o meu último poema.
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos              [intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.”

(Manuel Bandeira)

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A crônica crônica urbana

Era noite e uma leve brisa cortava a rua como uma navalha de gume frio que deseja roubar dos transeuntes o calor. Eu havia saído apressado de casa para ir a um supermercado local comprar ração para o Rex, um vira-lata que acolhi das ruas, e já estava no caminho de volta, quando um leve desconforto me lembrou de que eu não comia nada havia horas. Por sorte, tinha um daqueles “trailers” que vendem cachorro-quente logo na esquina da rua onde eu estava e o troco da ração do Rex era suficiente para comprar um sanduíche.

         Pelo visto, eu não era o único com aquela idéia: uma fila de cinco ou seis pessoas já estava formada atrás do carro. Pacientemente, entrei no final dela e me botei a esperar, observando os que já estavam ali. Havia um casal de meia idade que se protegia do frio sob dois pesados casacos de lã, uma jovem garota, de seus dezoito ou dezenove anos, e um grupo de três amigos, todos, a julgar pela aparência e pela conversa irreverente, na faixa dos vinte aos vinte e cinco anos de idade, rindo alegremente de banalidades.

         De repente, minha atenção foi desviada por algo que puxava a manga de minha jaqueta por trás de mim. Quando me virei para ver o que era, dei de cara com uma figura baixa, imunda e com os ossos em evidência sob uma pele muito maculada, e que fixava um par de olhos pidões em mim. A figura estava coberta por uma combinação completamente aleatória de roupas surradas e exalava um forte cheiro de total abandono. Somente quando aquilo começou a falar por uma fenda murcha abaixo do nariz ossudo que eu percebi que se tratava de uma pessoa.

         – Me dá umas “pratinha” aí, moço? – rosnou a figura.

         Limitei-me a dar um sorriso de falsa lamentação e continuei a prestar atenção nas pessoas que estavam por lá novamente. Notei, contudo, que a figura saíra de trás de mim e fora se assentar ao lado do “trailer”, lançando olhares esperançosos em cada freguês. De quando em quando, o proprietário do carro lançava ao chão uma migalha de pão, sobre a qual o ser se lançava com a voracidade de um animal há muito faminto. Eu ouvi quando a jovem garota que estava à minha frente perguntou, indignada “Como é que vocês deixam isso aí?” ao dono do carro, que encolheu os ombros dizendo que por mais que ele tentasse expulsar aquilo de lá, ele sempre voltava.

         Finalmente chegou a minha vez e, para o meu incômodo, aqueles olhos pidões voltaram a me mirar. Fiz o meu pedido e esperei até receber o cachorro-quente para dar ao vendedor uma nota e receber algumas moedas de troco. Nessa hora, o par de olhos, que parecia nem piscar, brilhou de maneira diferente.

         Incomodado com aquela situação, me aproximei do dono dos olhos e joguei uma moeda no chão. A figura avançou sobre a moeda e segurou-a com uma selvagem convicção e, então, lançou-me um olhar que me fez lembrar o Rex quando espera por mais alguma migalha do pão que estou comendo.

         Então, virei-me e fui embora. O Rex devia estar faminto.

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Poética

– André, o que

você quer ser

quando crescer?

 ….

– Quero ser marcante.

 ………

– Marcante como um médico,

cientista ou pensador?

 ………

– Não.

Marcante

como uma barata

na sala de estar.

…..

“Morre e trasmuda-te”: enquanto

não cumpres esse destino,

És sobre a terra sombria

Qual sombrio peregrino” (Manuel Bandeira)

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A face escura

Deitado em minha cama,

Olho pela janela como se houvesse algo para ser olhado.

Não há.

Há apenas janelas vizinhas,

Prédios vizinhos com mais janelas vizinhas,

Ruas com mais prédios, com mais janelas

Etc.

 a

Vez ou outra passa na rua o vulto de alguém

Caminhando como se fosse um rei cujo reino se inicia

quando os outros tantos reinos repousam em seus lares.

Alguns cantam, falam, conversam,

Talvez com os súditos que lhes povoam o reino.

Outros apenas passam em silêncio;

Seus súditos já abandonaram os campos e as vilas

Ou simplesmente morreram.
Eles não me importam.

Tenho meu próprio reino,

E, no meu reino,

Querem a cabeça do rei.

a

No céu, as estrelas brilham virginalmente.

Quando mais novo, costumava lhes destinar algum apreço,

Mas hoje não. Hoje, são apenas estrelas,

Reais o suficiente para que possam ser vistas,

Mas imaginárias de tal forma

Que nem sabemos se estão vivas ou mortas.

(Ainda assim, seu canto fascina

Alguns desavisados inocentes

Que buscam ver nelas o mundo que se expande sob seus pés).

Hoje, mal as enxergo no céu.

Quando algo se torna muito distante,

Torna-se insignificante.

a

Passo a assistir a um filme que sempre se repete.

Detesto-o.

Odeio o enredo,

Desagradam-me os personagens

– à exceção de uma antagonista, que logo morre -,

Abomino o protagonista

– ele é quem deveria morrer, sempre concluo.

À parte disso, não conheço o final.

Nunca tive paciência para vê-lo.

Torço pela morte do mocinho,

Mas algo me diz que não, ele não morrerá.

Que ele continuará vivo, firme e inabalável

Ao longo de toda a história.

Que ele continuará sendo o mocinho,

Fazendo coisas de mocinho

Para ter um final patético de mocinho.

a

Penso no livro que comprei mais cedo.

Nunca o lerei. Nem nunca acreditei que o faria.

Mas comprá-lo era como afirmar empiricamente

Que sim, eu o leria, que eu o queria ler

E é importante acreditar que se vai fazer algo

– aliás, acreditar é, muitas vezes,

Mais importante do que de fato fazer.

Mas era mentira.

Não queria lê-lo.

Não conhecia o autor,

Não sabia seu estilo,

Não vi qual era o assunto

Nem o público a que se destinava.

Mas de nada valeria sabê-los,

Visto que em alguma instância do eu

Já era sabido que a leitura não haveria.

Entretanto, comprei-o

E carreguei-o pela rua como se fosse

Meu livro preferido.

– neste momento, ele está

À cabeceira de minha cama, do lado direito do meu travesseiro

Junto com outros dois livros que comprei este mês.

 a

Olho, enfim, a lua.

Há nela algo de que gosto.

Seu brilho não é seu;

É um brilho roubado,

Usurpado e remodelado,

Usado para mascarar

Uma superfície escura, fria e abandonada,

Marcada pelas cicatrizes profundas

Dos meteoritos que lhe ferem.

E hoje a lua estava particularmente bela.

Não estava cheia

– aliás, ela cheia é tão ilusória quanto as estrelas,

E por isso não me encanta;

Ela estava quase cheia,

Mas a face escura se revelava

Como uma bruma, uma nódoa

De lama na alvidez de seu não-brilho,

E era essa nódoa, essa mancha densa

Insistente em impedir o brilho por completo

Que realçava a beleza da luz roubada,

Essa sim a verdadeira beleza da lua.

a

Olhando-a, vi que não era preciso

Mais procurar aquilo que mal sabia o que era.

Já havia encontrado, embora ainda não estivesse

Muito claro do que se tratava afinal,

Mas isso pouco importa;

São só nomes para o que é inominável.

Sentindo o corpo anestesiar-se da angústia que o feria,

Pendi a cabeça para o lado e deixei-me adormecer

Como há muito não fazia.

Mas a face escura se revelava como uma bruma, uma nódoa de lama na alvidez de seu não-brilho

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Questão prática

– Pai, por que matar os ratos

em vez de limpar o esgoto?

1

-É que os ratos vão às ruas,

mas o esgoto, ninguém vê.

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A praça

Havia uma praça velha

em que ratos e baratas

habitavam os canteiros.

1

Porém, veio a reforma.

1

Passou, pois, a nova praça

a ter ratos e baratas

habitando seus bueiros.

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Leitura breve

Faço meus olhos correrem por palavras dispostas

em uma folha xerografada

como se em busca de uma autenticidade.

Uma justificativa, talvez.

Não encontro.

A folha em minhas mãos, essa folha

em que nada que está presente é senão

um espectro de algo provavelmente perdido

ou deteriorado pelo tempo,

é como uma fotografia antiga

em que alguém evidentemente sorri,

mas o motivo da alegria há muito esmaeceu.

1

Enquanto procuro,

o ar entra em meu peito, invade meu sangue,

alimenta meus tecidos

e sai

naturalmente. Sem que eu faça

ou que exerça qualquer nível de arbítrio.

E isso me faz vivo.

Porém, falta algo…

Há em meu peito um vazio

que é mais que um vazio qualquer;

é um vazio repleto de não coisas

e coisas de não.

É um vazio que compartilho

com a folha xerografada

ou com o sorriso da foto.

Vazio de quem está, mas não é,

procura, mas não sabe ao certo o quê,

caminha, mas não vê seus rastros.

De quem se lembra, mas não crê.

1

Ainda um tanto aturdido,

procuro na folha, na foto, na respiração

a tal autenticidade.

Mas ela me foge como sombras

as quais procuramos com lanternas.

Talvez de fato não exista e seja apenas

uma imaginação mais forte, um desejo imaturo.

Ou talvez seja mesmo tão palpável,

tão concreto que nos escapa aos sentidos.

1

O real, se metafísico fosse,

não seria tão ébrio.

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A esta folha

Por que me olhas?

Por que o fazes?

Por quê?

Esperas que eu vá preencher

o vazio que te define,

mas não o farei.

Não o posso fazer.

Não tenho como fazê-lo.

Sou tão incapaz quanto tu

(Se tenho um lápis em mãos é por pura ironia do destino).

Sou vazio como tu.

Minto. Sou mais.

Tu és repleta dos espaços e linhas

prontos para serem preenchidos.

Tu és um grande potencial de significação.

Eu não. Sou vazio de tudo. Sou cru.

O branco que me ocupa não é como o teu,

que é o branco a ser preenchido;

O branco que me ocupa

é o branco que preenche.

E torna, pois, vazio.

 1

Não posso te preencher.

Não porque não quero. Não. Eu, na verdade, adoraria.

Adoraria te dar letras, frases,

preencher-te com o que me toca,

com o que sinto,

com o que sou.

Mas não posso.

Não tenho com que te preencher.

Não tenho frases para ti.

Não tenho algo que me toca.

Não tenho nada.

Não sinto nada.

Não sou nada.

Nem tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Sr tivesse, escrevê-los-ia em ti.

Mas não os tenho. Não tenho nem os meus.

Por isso, perdoe-me, mas

não poderei te preencher como tanto queres.

Talvez, tu devas procurar por outro a quem pedir,

não a mim.

Eu nada poderei te dar,

porque nada sou.

Nada tenho, senão o branco.

E essa minha prolixidade.

 1

Perdoe-me, mas não. Não posso

da maneira que tu me pedes.

Perdão.

O máximo que te posso oferecer

é o diálogo silencioso entre nossos brancos

e nossos espaços vazios.

Sugiro que te contentes com isso,

que é o melhor que tenho a te ofertar.

Do contrário, procure outro a quem pedir

e que te possa melhor atender.

E não – por favor, não –

não me olhes mais.

Nunca mais.

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Pássaro

A sala era grande. As paredes, muito brancas, ostentavam belos quadros, prateleiras bem-dispostas, e mesmo as sombras que nelas dançavam a partir da luz suave das lâmpadas no teto de gesso pareciam ter sido cuidadosamente calculadas para formarem desenhos precisamente abstratos. Roubando parte do espaço que era das sombras, estava um sofá. Vermelho, aveludado. Vermelho o suficiente para ser sedutor e aveludado o suficiente para ser maduro. Ela se encontrava ali, sentada. Quieta. A televisão à sua frente estava ligada. Passa um jogo de futebol, talvez. Ela não tinha certeza. Seu olhar, por mais que estivesse na direção da tela, ia além, muito além. Era como se ela estivesse ali meramente por acaso. Era uma das sombras que dançavam na parede que, sem querer, acabou escapulindo para fora da brancura e foi parar ali no sofá. Era, talvez. Era talvez.

Ele entrara para buscar algo. A carteira? Não, as chaves. Ou era um retrato de família que ele queria mostrar? Ou talvez outros milhões de coisas. Ela não saberia. Estava um tanto quanto dispersa. Era bem verdade que ela vinha sendo assim nos últimos tempos. Dispersa. Não que estivesse desanimada, muito antes pelo contrário. Era só que, de quando em quando, batia um vazio esquisito, desses que chegam de dentro pra fora, e ela se dispersava por alguns instantes. Um frio que lhe tangia o rosto quando ela tentava se decidir, no meio de rua, se virava à esquerda ou à direita, se seguia em frente ou se voltava atrás. Ah, era isso! A blusa de frio! Ele fora buscar uma blusa de frio. Afinal, entrava um vento um tanto gelado pela janela do outro lado da sala.

Esfriara de fato. Ela, no sofá, sentia o corpo estremecer. E sua blusa ficara no carro. Justo agora! Lá de dentro, não se ouvia muita coisa além do ruído de portas e gavetas de armário se abrindo e fechando. Ele ainda demoraria alguns minutos. Pela janela aberta entrava, cada vez mais, o vento frio. Ela estremecia. Levantou-se. O frio a incomodava. Por um momento, pensou em ir atrás dele, no quarto. Iria ajudá-lo a encontrar a tal blusa, e, caso não a achasse, se faria de uma para ele, cobrindo-lhe o dorso, os braços, o corpo. Os problemas do frio e da blusa se resolveriam. Mas não, não poderia fazer isso. Ela tinha que resolver o problema do frio por ela mesma, não pelo calor alheio. Decidiu voltar ao carro e pegar sua própria blusa, que não deveria ter ficado lá. Assim, ela se aqueceria sem depender dele, que poderia, muito bem, não aceitar o seu corpo como agasalho naquele momento. Sem falar que, mesmo que os dois se aquecessem, logo chegaria o momento em que teriam de se desvestir um do outro, e o frio tornaria a atacar, talvez, com força redobrada. Buscar a própria blusa era uma atitude mais sensata, concluiu. Nova brisa entrou pela janela, fazendo-a arrepiar. E pensar. Buscar a blusa no carro aliviaria, sim, a sua sensação de frio, porém o vento continuaria a circular, gelado, na sala onde ela estava. A blusa seria, então, uma medida meramente paliativa. Uma espécie de enganação que ela fazia ao frio. Mas ele continuaria a existir ali, esperando o momento em que, descuidadamente, ela retiraria a blusa ou a hora certa para aumentar de intensidade, vencendo, inclusive, o agasalho. A blusa, por mais aconchegante que fosse, não venceria jamais o frio da sala. Apenas o esconderia das sensações do corpo.

Restara, pois, apenas uma opção: fechar a janela. Aí, sim, o frio deixaria de existir na sala. Claro que, do lado de fora, ele ainda estaria forte. Mas o frio em si é inerente à noite, e mesmo ao mundo. É impossível fazê-lo deixar de existir da janela pra fora. Mas bani-lo da sala, do quarto, de casa, isso, sim, é possível. Mais que isso: necessário.

Mas, quando ela se pôs de frente para a janela, seu corpo parou. Seus braços se imobilizaram. Suas pernas endureceram. O rosto manteve-se imóvel, como se congelado. Mas não era o frio. Era algo diferente. Nunca antes ela estivera diante de um espetáculo tão mórbido e tão fantasticamente maravilhoso ao mesmo tempo quanto aquele que se revelava para ela a partir da janela. O apartamento dele ficava no oitava andar, bem no centro da cidade. Justo no Centro, aonde tantas vezes ela foi, apressada, resolver isso ou aquilo. No Centro, feio e movimentado, que lhe causava asfixia sempre que por ali ela passava. No Centro, onde a multidão a engolia e a transformava em uma pequena formiga tentando não ser pisoteada pelos sapatos furiosos que golpeavam o concreto. Mas o Centro – aquele Centro horripilante –, dali der cima, mostrava-se outro. A noite fazia tombar sobre as ruas e as fachadas imundas do dia um ar quase místico de mistério e ebriedade. A multidão fagocitante do meio da tarde dava lugar a uns poucos bêbados e maltrapilhos, que caminhavam errantes em passos trôpegos ou se desmontavam sobre meio-feios e soleiras com a beleza dura e crua de sua poesia.

As ensurdecedoras buzinas do meio-dia foram trocadas pelo som longínquo das muitas vozes aos risos, quase aos gritos, que emanavam das dezenas de botecos multiplicados pelas esquinas e ecoavam de parede em parede, juntando-se àquelas vindas das salas de estar dos muitos apartamentos dos prédios que se erguiam como árvores das ruas, até chegar à janela onde ela estava, ainda atônita. Seus olhos piscavam pouco. Não que aquela realidade lhe fosse completamente desconhecida. Mas, de uma forma muito estranha, essa realidade, ali, da janela do oitavo andar de um prédio no detestável Centro da cidade, parecia, pela primeira vez, mais real. De uma maneira que ela ainda não compreendia bem, a vida urbana – não apenas no sentido de vida que há na cidade, mas no da vida da própria cidade – parecia ter escapado das páginas dos mais diversos livros de literatura, das crônicas dos jornais, dos scripts de filmes ou mesmo da conversa dislexa de poeta de rua e resolvido se apresentar ali, inteira, condensada, nua diante de seus olhos fascinados. E veio de forma tão absurdamente arrebatadora que, se antes ela pretendia simplesmente fechar a janela para privar o frio à noite na rua, agora ela se aproximava passo a passo, à medida que seus pés retomavam os movimentos após o choque, da janela, sempre aberta.

Com movimentos lentos, ela se debruçou no parapeito da janela e colocou sua cabeça para fora do apartamento. Pela primeira vez, veio-lhe a consciência do quão alto ela estava em relação às pessoas nas ruas, pequenos pontinhos, agora. Elas, inclusive, notou, não usavam roupas de frio lá embaixo. E mesmo ela, aos poucos, ia deixando de sentir frio. Apenas uma leve coceira acometia-lhe as costas, mas nada demais.

Contudo, foi quando olhou para o céu que seu corpo tornou a se estremecer – dessa vez, não de frio, mas de um êxtase que ela não sabia explicar. As estrelas, tão presentes em outros céus, ou, pelo menos, no que ela tinha em mente, haviam despencado de seus altares para invadir os milhões de casas e apartamentos que salpicavam iluminados na escuridão, deixando o céu completamente nu em seu pequeno espaço apertado entre os prédios sempre imensos que lhe invadiam os domínios. A noite, sem espaço para ser no ornamento, invadira as casas das pessoas, e elas, sem que se dessem conta, a recebiam com hospitalidade e lá a cultivava. E, com o tempo, a noite crescia nos lares, onde, para espanto ainda maior dos olhos da moça, as pessoas se cobriam com cobertores e com roupas de frio. E todas, ou a grande maioria delas, estavam com as janelas da casa fechadas.

Nesse instante, ele retornou à sala, agora vestido com uma pesada blusa de moletom. Visivelmente estava com frio. Estranhando o fato de ela estar na janela, pediu-a que a fechasse. Mas ela, por sua vez, não sentia mais frio. Pelo contrário, agora o tempo lhe estava agradável como nunca. E, fitando-o bem em seus olhos, ela percebeu que o frio que ele e todas as outras pessoas fechadas em seus apartamentos sentiam – e com o qual ela própria sofrera havia pouco – era, sim, o frio inerente da noite. Contudo, não era o da noite que se abria para aquele mundo quase mágico de tão real ao qual ela assistira da janela; era o da noite que se instalava dentro de cada casa, a noite que a fazia se camuflar em meio às sombras que na parede branca dançavam.

Ele veio lhe abraçar. Ela, porém, se afastou, sempre lhe sorrindo com compaixão. Ele ainda sentia frio e logo pediria para fechar a janela. Mas ela, ao contrário, queria a janela aberta para que fosse possível saltar para a noite agradável que o mundo além-apartamento oferecia. Ela precisava disso. Não mais queria se sentir uma das sombras da parede enquanto passava um jogo de futebol qualquer na televisão. Não queria vencer o frio através de pequenas ilusões criadas, como a blusa e o ato de fechar a janela. Ela queria era sentir o vento que soprava do lado de fora, onde a vida, estranha e rude, mas pulsante da cidade, convidava-lhe para longos passeios e conversas. Ela queria ler a poesia concreta das pessoas que, na rua, transitavam sem nenhuma proteção contra o frio, porque não o sentiam mais. Ela queria voar.

Afastou-se, então, lentamente dele até ficar de costas para a janela e para o mundo que se abria a partir dela. Após um derradeiro sorriso, sempre terno, virou-se de costas, revelando, para a surpresa e o espanto do confuso rapaz, um belo par de asas brancas que lhe nasciam às costas no ponto que havia pouco coçava. As plumas cresceram como flores e logo se mostraram magistrais. Então, ela subiu no parapeito da janela e, em um movimento gracioso, diametralmente oposto aos que ela produzia quando sentada no sofá, com frio, saltou para um voo em direção ao céu vazio da noite, livre como nunca.

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